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Manaus - Amazonas

Boi-bumbá: Garantido e Caprichoso

Por Ana Golfetto Masella

Folclore e Lendas do Amazonas

A Amazônia guarda mistérios que o homem está longe de desvendar, tamanha a biodiversidade que abriga. E tal grandiosidade só poderia resultar em mitos que há muito povoam a região. Transmitidas de geração em geração, as estórias, contadas em festas populares ou em rodas de conversa, enriqueceram as manifestações culturais do Amazonas. Conheça um pouco do folclore e as lendas que aproximam você da cultura amazonense.

Folclore da Ciranda

A Ciranda é manifestada por um conjunto de cantigas de roda originadas em Portugal e na Espanha. No Brasil, estas cantigas se adaptaram assumindo diferentes características. Ao contrário das demais danças folclóricas amazônicas, seu ritmo é relativamente lento e os movimentos se desenvolvem com a formação de um grande círculo humano. Já sua musicalidade preserva tradições regionais, utilizando instrumentos de pau, corda e sopro, como os curimbós, maracás, banjos, cacetes e flautas. À frente do grupo, uma imagem de pássaro conhecido como "carão" remete ao personagem da cantoria, chamando a atenção do público.

Folclore do Boi-Bumbá Caprichoso

O Boi-Bumbá Caprichoso é uma das duas agremiações de boi-bumbá que compete anualmente no Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas. Defende as cores azul e branco, carregando uma estrela azul na testa. É considerado o guardião da floresta, do imaginário caboclo e do lendário dos povos indígenas. A versão tradicional conta que o boi foi fundado em 1913 pelos irmãos João Roque, Félix e Raimundo Cid, que vieram à região motivados pelo ciclo da borracha. Passaram pelas cidades do Maranhão e Pará, agregando elementos dessas manifestações folclóricas (Bumba-Meu-Boi, maranhense e Marujada, paraense) ao Boi Caprichoso. Seu curral, como é conhecida a sede, fica na parte baixa de Parintins.

Folclore do Boi-Bumbá Garantido

O Boi-Bumbá Garantido é a outra das duas agremiações do boi-bumbá. Defende as cores vermelho e branco, carregando um coração vermelho na testa. É conhecido como "contrário" por possuir uma tese contrária sobre a data de fundação do Caprichoso, que se diz mais antigo. O consenso é de que foi fundado em 1913 por Lindolfo Monteverde, surgindo de uma brincadeira de boi que dançava para divertir crianças e adultos. Devido a uma grave doença, Lindolfo fez uma promessa a São João Batista. Se ficasse curado, realizaria anualmente uma festa de Boi em sua homenagem. Como foi atendido, todos os anos seus torcedores saem às ruas para dançar em frente as fogueiras e festejar o São João. Seu curral fica na sede "Cidade Garantido", na baixa do São José.

Lenda do Boto

A lenda do Boto é sem dúvida uma das mais conhecidas no folclore amazônico. Dizem que nos períodos de festas surge um rapaz belo, atraente, desconhecido, bom dançarino e, principalmente, vestindo elegantes roupas, sapatos e chapéu brancos. É o boto que sai do rio e se transforma. O chapéu serve para ocultar parte do seu rosto e o orifício que possui no alto da cabeça (por onde respira), já que a transformação não é completa. Nessas festas o boto dança e bebe, espreitando uma moça bonita, de preferência virgem e ingênua, a qual seduz e leva para o fundo do rio, onde, por vezes, a engravida. Por esse motivo, durante os festejos, quando aparece um rapaz de chapéu, as pessoas pedem para que ele o retire a fim de comprovar que não é o boto. As mulheres mais velhas alertam às jovens para cuidarem com homens muito bonitos e galantes, e assim evitar serem seduzidas e virar mãe solteira. A lenda também é usada para justificar um filho gerado fora do casamento, sendo comum ouvir que a criança é filho do boto. Contam ainda que o boto é uma espécie de protetor das mulheres em embarcações que naufragam. Quando isso acontece, ele aparece empurrando as mulheres para as margens do rio para que não se afoguem. Essa lenda tem origem no boto-cor-de-rosa, um mamífero semelhante ao golfinho que habita a bacia do rio Amazonas.

Lenda da Cobra Grande

A Cobra Grande é uma lenda muito famosa no folclore amazônico, aparecendo em diversos contos indígenas. Diz a lenda que uma grande cobra, chamada Boiúna, cresce de forma gigantesca, saindo da floresta para habitar o fundo dos rios. Ao rastejar em terra firme, seu rastro se transforma em igarapés. Segundo contam, a cobra surgiu numa certa tribo da Amazônia, quando uma índia, grávida de Boiúna, pariu duas crianças gêmeas. O menino foi chamado de Honorato e a menina de Maria. Mas a índia não queria as crianças e jogou-as no rio. As crianças sobreviveram. Honorato era bom, enquanto sua irmã se tornou perversa. Prejudicava pessoas e animais. Para dar fim às suas maldades, Honorato acabou por matá-la. Contam que nas noites de lua cheia, o encanto era desfeito e Honorato se transformava num belo rapaz. Para quebrar de vez o encanto, era preciso derramar leite na boca da cobra e ferir sua cabeça até sangrar. Ninguém tinha coragem de enfrentar a imensa cobra, até que um dia, um soldado conseguiu libertar Honorato, que passou a viver na terra como homem e com sua família. A verdadeira cobra grande, a sucuri, é retratada como a anaconda da Amazônia.

Lenda da Iara

A Iara é uma lenda muito comum na Amazônia. Diz a estória que Iara é uma sereia (metade mulher, metade peixe) que vive nos rios do norte do país. Com cabelos longos e negros, hipnotiza os homens com seu canto mágico atraindo-os até o fundo do rio - de onde nunca mais voltam. Alguns acreditam que ela tenha uma estrela cintilante na testa, que funciona como chamariz. E que é vista alisando os longos cabelos com um pente de ouro, se admirando no espelho das águas. Segundo os índios, Iara surgiu numa tribo indígena e era uma excelente guerreira. O pai a elogiava tanto que os irmãos, com ciúmes, planejaram matá-la. Mas ela descobriu o plano e, para se defender, matou os irmãos e fugiu para a mata. O pai a perseguiu e conseguiu capturá-la. Como punição, foi jogada no rio Solimões. Os peixes do rio a salvaram e, como era noite de lua cheia, transformaram-na numa bela sereia. Desde então, passou a tentar os homens, que cedem aos seus encantos morrendo afogados de paixão. A Iara é também conhecida como "mãe das águas".

Lenda da Lua

A lenda da Lua conta sobre a origem da lua, que era conhecida como Manduka. Dizem que um índio chamado Manduka namorava a sua irmã e se deitava com ela todas as noites. Para não ser identificado, não falava nem mostrava o rosto. Porém, a jovem índia queria descobrir quem era o rapaz. Então, passou tinta de jenipapo no rosto de Manduka, que lavou o rosto, mas a marca não saiu. E assim, ela descobriu, ficou envergonhada e chorou. O índio também ficou envergonhado e resolveu subir numa árvore que se estendia ao céu. Retornando, Manduka disse aos Jurunas que voltaria à arvore e que de lá jamais desceria. Levou uma cotia para não ficar só, e virou lua. Falam que a lua tem manchas escuras por causa da tinta de jenipapo. No meio da lua, costuma aparecer uma cotia.

Lenda do Mapinguari

O Mapinguari é o monstro mais popular da Amazônia, cuja lenda se originou com os índios da região. Contam que dentro das florestas vive o Mapinguari, um gigante peludo com um olho na testa, boca no umbigo, mãos compridas e unhas em garra. É um verdadeiro demônio do mal, matador por natureza. Com uma fome insaciável, mata para comer, com singular precisão e quem encontra pela frente. Dorme à noite e anda durante o dia, na penumbra das matas fechadas, surgindo bruscamente. Não anda de forma silenciosa, mas vem soltando gritos, curtos e horríveis, quebrando galhos e derrubando árvores, o que amedronta suas vítimas deixando-as sem ação. Seus berros explicam os ruídos naturais produzidos pela floresta e que não podem ser decifrados de maneira lógica. Dizem que alguns índios quando alcançam uma idade mais avançada, evoluem e se transformam em Mapinguari, passando a morar sozinhos no interior das florestas. Sua figura intensifica o medo do povo nômade que habita as matas e acampa às margens desertas de rios e lagos.

Lenda da Matinta Perera

A Matinta Perera é mais uma das inúmeras lendas do folclore amazônico. Contam que a Matinta é uma velha assustadora, com cabelos caídos no rosto e que se veste de preto. Nas noites e madrugadas, principalmente as noites sem luar, a velha ronda as imediações das casas assobiando de forma assustadora, causando pavor e levando azar por onde passa. Nessa ocasião, o dono da casa deve prometer alimento ou tabaco para a velha ir embora. No dia seguinte, a Matinta aparece para cobrar a promessa. A velha é uma pessoa do lugar que carregaria a maldição de "virar" Matinta Perera - e que à noite se transforma para assombrar as pessoas. Segundo a lenda, a Matinta pode aparecer em diversas formas (geralmente como uma coruja). Acredita-se que ela tenha poderes sobrenaturais e que seus feitiços possam causar danos às vítimas, provocando dores físicas e até a morte. Quando a velha está para morrer, ela pergunta: "Quem quer? Quem quer?". O primeiro à responder "eu quero", recebe a sina de "virar" Matinta Perera.

Lenda do Muiraquitã

A lenda do Muiraquitã é sem dúvida uma das mais intrigantes, principalmente por ter seu fundo de verdade. Dizem que o Muiraquitã traz felicidade por ser um amuleto de sorte para quem o possui. O pequeno talismã costuma se apresentar no formato de um sapo, uma vez que simboliza a lenda original e é confeccionado em jade (pedra de tonalidade esverdeada), porém, pode aparecer na forma de outros animais como jacaré, tartaruga, onça. Sua fama e exotismo foram cobiçados desde o princípio da colonização amazônica. Atualmente, poucos de seus exemplares estão espalhados por museus mundiais e coleções particulares. Segundo contam, a lenda surgiu de uma tribo de mulheres guerreiras conhecidas como Icamiabas, chamadas pelos europeus de Amazonas. Essas índias sem maridos eram protegidas pela lua, motivo pelo qual ofereciam uma festa em sua homenagem todos os anos. Durante os festejos, recebiam os guerreiros Guacaris para procriar. Se a criança nascesse mulher, ficava com elas, se nascesse homem, era entregue aos guerreiros para criá-la. Após o acasalamento, antes da meia-noite, as índias mergulhavam num lago banhado pela luz da lua. No fundo desse lago, próximo às nascentes do rio Nhamundá, recebiam os preciosos muiraquitãs, ainda moles, para serem moldados. Ao saírem da água, os talismãs endureciam no contato com o ar. Então, eram dados de presente aos guerreiros, que os usavam no pescoço como um amuleto de sorte.

Lenda do Sol

A lenda do sol conta sobre a origem do sol, que era conhecido como Kuandú. Dizem que um índio chamado Kuandú tinha três filhos: o mais velho era o sol que aparecia em períodos de seca, o mais novo era o sol que surgia em períodos chuvosos, o do meio ajudava os outros dois quando estavam cansados. Um dia, Kuandú ficou bravo e foi para o meio da mata. No caminho, cruzou com um índio Juruna. Kuandú disse que iria matá-lo, mas Juruna foi mais ágil e o acertou na cabeça com um galho. Neste momento, tudo escureceu. As crianças passaram a morrer de fome porque não era possível trabalhar na roça nem pescar. Estava tudo escuro. Então, a mulher de Kuandú mandou um dos filhos sair de casa. Ele não aguentou porque era muito quente e voltou. Escureceu de novo. E assim, ficaram os três filhos de Kuandú entrando e saindo de casa. Quando é seca e o sol está forte, é o filho mais velho fora de casa. No período chuvoso, quando o sol é mais fraco, é o filho mais novo. E o filho do meio só aparece para os outros dois descansarem.

Lenda do Uirapurú

O Uirapurú é uma ave encontrada na Floresta Amazônica, considerada símbolo do Amazonas. Dizem que seu canto é tão lindo que as outras aves silenciam para ouvir sua melodia. Isso inspirou diversas lendas sobre o Uirapurú-verdadeiro, que é conhecido como um amuleto de felicidade para os negócios e o amor. Acredita-se que o homem que carrega sua pena, será bem-sucedido nos negócios e irresistível para as mulheres. A mulher que consegue um pedaço do seu ninho, manterá o amado apaixonado e fiel pelo resto da vida. Já, quem ouve o seu canto, deve fazer um pedido rapidamente para ser atendido no futuro (essa é a melhor das opções, pois não prejudica a espécie ao capturar a ave ou destruir seu ninho). Uma das lendas conta que um índio guerreiro se apaixonou pela mulher do cacique. Como não podia estar perto dela, pediu para que Tupã o transformasse numa ave. Então, ia todas as noites cantar para sua amada, mas foi o cacique que notou seu canto. Ficou tão encantado que tentou pegar o pássaro. Perseguindo-o pela floresta, acabou se perdendo. Mas o Uirapurú não desistiu. Voltou e continuou cantando todas as noites para sua amada, na esperança de que ela o descubra através do seu belo e doce canto.

Lenda da Vitória-Régia

A lenda da Vitória-Régia é muito popular na região da Amazônia. Diz a lenda, que a Lua era um deus que gostava de belas índias virgens. Quando se escondia, levava consigo uma moça e a transformava em estrela. Numa aldeia indígena, uma jovem guerreira chamada Naiá se apaixonou pela Lua e ficou ansiosa pelo dia em que seria escolhida. Todas as noites, saía para admirá-la, até que a paixão virou obsessão. Certa noite, o luar estava lindo e a moça viu a Lua refletida nas águas de um lago. Acreditou que o deus havia descido para ali se banhar. Não teve dúvidas: mergulhou nas águas profundas e morreu afogada. Vendo o sacrifício da índia, a Lua ficou comovida e resolveu transformá-la em uma estrela diferente. Seria uma estrela das águas, imortalizada como uma flor delicada: a vitória-régia. É por esse motivo que suas flores perfumadas e brancas só desabrocham durante a noite, e ficam rosadas quando aparecem os primeiros raios do sol.

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